Sobrevivente da bomba de Hiroshima

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6 agosto, 2015

 

A japonesa Yasuko Hirose conta a sua experiência dramática como sobrevivente da bomba de Hiroshima, que hoje completa 70 anos. Para ela, não se calar é uma forma de evitar que a bomba atômica seja usada novamente.

 

A japonesa Yasuko Hirose torturou-se durante anos, perguntando-se porque ela havia sido escolhida para sobreviver ao ataque nuclear em Hiroshima. No dia da explosão, ela deveria ter ido ao centro da cidade, perto do ponto zero, acompanhando alunas da escola onde era professora de inglês. Naquela época, as aulas haviam sido suspensas e os estudantes integravam o esforço de guerra japonês.
No entanto, como o colégio receberia a visita de representantes do Ministério da Educação, Yasuko permaneceu lá para recepcioná-los. Um outro professor foi com as alunas e não sobreviveu. A escola ficava a dois quilômetros do epicentro.

Hoje, teria 100 anos , o relato é de 2005,  Yasuko não quer que sua história e o sofrimento das vítimas da bomba sejam esquecidos. Para ela, não se calar é uma forma de evitar que a bomba atômica seja usada novamente.

A explosão

“Tinha 30 anos quando a bomba caiu e era professora de inglês numa escola para meninas. Lembro-me do que eu estava fazendo no momento da explosão como se fosse ontem. Essa bomba que eu recebi nunca saiu de mim. Isso é a minha vida. Naquela época da guerra, nunca tinha pensado que fosse acontecer uma coisa como essa, mas aconteceu. Eu estava nos fundos da escola, arrumando louças para o almoço que serviria aos representantes do governo, que estavam vindo de Tóquio. Apareceu um funcionário do colégio, dizendo que tinha uma visita para mim. Fiquei surpresa e fui correndo para o meu quarto. Estava me esperando lá uma aluna minha, que tinha trazido pêssegos enviados pela minha mãe. Estranhei essa atitude da minha mãe. Pensei: ‘Por que ela está usando uma aluna minha para fazer este serviço?’. A menina deveria estar trabalhando no centro com as outras. Nós nos sentamos e decidi escrever um agradecimento para a minha mãe pelo presente. Nunca se comia pêssegos naqueles anos. Então passou uma luz rapidamente. Era uma cor bonita, azul, roxa. Então, veio um grande estrondo. Um barulhão. E, num instante, eu estava coberta pela casa. O prédio tinha caído em cima de nós. Não tenho idéia de quanto tempo fiquei debaixo dos escombros. Perdi a consciência. Desmaiei durante não sei quantas horas. Quando acordei, já estava escuro. Não conseguia me mexer. A escola era feita de madeira. Era bonita e bem preservada, mas feita de madeira. Eu me esforcei bastante e chamei pela aluna. Ela respondeu: “Estou viva. Não estou ferida”. Estávamos perto da saída, da porta do quarto, senão não conseguiríamos sair. Eu pude sair primeiro.”

O silêncio

“Vi uma paisagem muito ampla, sem nenhum prédio de pé. Até o mar, não tinha nada. Eu fiquei estranhando, pensando: “O que será que aconteceu?” Não pude compreender nada. Tinha muitos cacos de vidro no chão. Vi um sapato de homem e calcei. (Ela estava descalça, porque no Japão tem-se o hábito de tirar os sapatos antes de entrar em alguns ambientes). Fiquei esperando alguém aparecer, porque havíamos combinado com os alunos da Universidade de Hiroshima que, se acontecesse alguma coisa, nós nos ajudaríamos. Era pertinho. Mas não tinha sobrado nada dos prédios; só um, com estrutura de ferro. Chamei, chamei por pessoas, mas ninguém me respondeu. Era um silêncio, estava tudo quieto. Não havia barulho.”

Susto ao ver aluna

“Esperei alguma aluna chegar. Elas tinham ido trabalhar na cidade. Uma veio correndo. Mas levei um susto! A pele do rosto dela estava caindo. Ela começou a chorar. Perguntei qual era o nome dela. Eu a conhecia, mas seu rosto estava desfigurado. Ela me disse o nome, eu a deixei entrar na escola e esperei por outras mais. Mas não apareceu mais ninguém. Então, eu também entrei na escola. Tinha um pátio grande (as alunas e os professores do colégio haviam combinado que se encontrariam neste local caso houvesse algum acidente ou ataque). Havia alguns professores e algumas alunas.”

Água, última consolação

“Recebi uma ordem para levar um grupo de 20 meninas para um abrigo antibomba. Não sabíamos se a cidade seria atacada de novo. Fui escolhida para levá-las. Algumas estavam feridas. Então, saí da escola, passei para o outro lado do rio, para chegar a um pátio muito grande do Exército. Já tinha bastante gente, pessoas deitadas em fileiras, como sardinhas. Havia feridos e mortos, não dava para distinguir. Estavam gemendo, gemendo. Gritavam: “Água, água”. Nós choramos, mas o chefe dos soldados nos pediu para ajudá-los. Começamos a ajudar as pessoas. Naqueles tempos, se dizia que não podia dar água aos feridos. Não sei explicar cientificamente o porquê. O Exército tinha experiência em outros confrontos e dizia isso. Mas teve uma pessoa que me disse: “Não posso viver mais, por favor, me dê água”. Assim, decidi tirar um pouco de água e molhar sua boca. Fiz o mesmo com outras pessoas. Alguns diziam: “mamãe, me dá água, mamãe”. Cheguei para uma pessoa e disse: ‘Eu sou a sua mãe e vou te dar água.’ Ela deu uma risadinha, foi bonito. E morreu na hora. Eu vi o momento em que ela morreu. A água era a última consolação deles. Foram três dias e duas noites trabalhando no abrigo.”

Ferida nas costas

“Minha ferida começou a doer. (Ela explica que, quando ficou sob os escombros, teve um ferimento nas costas, de 7 centímetros de profundidade). Na hora que saí dos escombros, senti algo diferente nas costas, passei a mão e vi sangue. Mas não podia dizer que estava ferida, pois não paravam de chegar pessoas num estado muito pior. Eu não podia dizer nada. Uma enfermeira da escola tinha me dado um vestido pequeno, de uma das alunas, para eu me trocar, porque estava cheia de sangue. Então, a ferida começou a doer muito e eu não podia mais me levantar. O chefe dos soldados mandou um deles me levar para a escola, carregada. Lá, eu falei sobre a situação das meninas que havia levado para o abrigo e pedi para alguém me substituir no meu cargo. E eu fiquei dormindo, sem consciência, na escola. Não sei quantas horas passaram e acordei. Alguém me disse: “Eu vou te levar para a sua casa”. Eu fui na garupa da bicicleta dele. Agarrei-me às suas costas e ele começou a andar.”

Casa destruída

“Chegamos à casa onde minha família havia se refugiado, no subúrbio da cidade. Outra vez, perdi a consciência. (A casa de Yasuko ficava no Centro de Hiroshima, mas a família toda já havia se refugiado na casa de parentes). Minha casa havia queimado, teve um incêndio. Não sobrou nada. No dia seguinte que cheguei à casa, eu acordei, mas não podia me mover por causa da ferida.”

Os parentes

“Graça a Deus, nenhum parente meu morreu diretamente por causa da bomba. Mas minha irmã mais velha ficou doente, de repente, dois meses depois da bomba e morreu. Ela não sofreu nenhum ferimento, não estava no Centro de Hiroshima. Foi de choque, espiritual. Ela ficou muito abalada. Meu irmão mais novo estava freqüentando a escola em Hiroshima. Ele sofreu o impacto da explosão, foi jogado por dez metros, mas não recebeu a luz, graças a Deus. Ele caiu na água, por isso não morreu. A maioria das minhas alunas morreu. Mais ou menos, 500 alunas tinham ido trabalhar na cidade e 90% delas morreram. Eram meninas de 13 até 16 anos. Quanto aos amigos, perdi quase todos.”

O maior trauma

“O professor (que levara as alunas ao Centro da cidade) faleceu no meu lugar. Se eu tivesse ido acompanhar as alunas, não estaria aqui agora. Isso ninguém me explica. É um grande trauma para mim. Ele era professor de História e era um amigão meu. Um dia antes, foi à minha mesa e me perguntou: “Você pode oferecer almoço para mais duas pessoas?”. Naquela época, não tinha arroz para quem não fosse da cidade, por causa do racionamento. Eu administrava a comida e aceitei o pedido. Ele ficou contente comigo e disse que iria fazer meu serviço no dia seguinte, já que eu estaria muito ocupada na cozinha”. Deixei 40 meninas nas mãos dele e apenas três ou quatro sobreviveram. Eu quis ter morrido com meu amigo. Rezo minha vida inteira por ele. Ele morava com a esposa e não tinham filhos, ainda bem. Ela também morreu.”

O clarão e a ventania

“Quando a bomba atômica cai, primeiro vem a luz. Aquela luz bonita, que não tem comparação com outras. Em segundo, vem um vento forte, de não sei quantos metros por segundo. Em terceiro, vem um estrondo, um barulhão. E, depois, nuvens pretas, se espalhando por toda a cidade. E a cidade ficou escura, muito escura. Todos os prédios ficaram destruídos menos aquele (o domo). Depois, vem a chuva. Dizem que é negra, mas não a vi, não peguei esta chuva. Alguém me contou depois. A cidade fica reta, sem nenhum prédio, e acontecem os incêndios, que se espalham por toda a cidade. Minha escola ficou queimada mais ou menos às 18h daquele dia mesmo. É assim a bomba atômica.”

Cidade da morte

“Se eu tivesse sido exposta diretamente à luz, teria me acontecido o que houve com outras pessoas, de o cabelo cair, em maços. As roupas queimavam e sumiam do corpo. As pessoas ficavam nuas. As queimaduras na pele ficavam pretas e a pele caía. Apodrecia. Tinha bichos, larvas na pele das pessoas. Vi isso acontecer com muitos dos que estavam no abrigo. Apareceram muitas moscas, por causa do tempo quente de verão. Os soldados decidiram queimar os corpos dos mortos. A cidade ficou com cheiro de queimado. Virou a cidade da morte. Fisicamente, as pessoas ficavam com muita sede, a ponto de não conseguirem agüentar. Mas diziam que quem bebia água morria logo. Eu não sabia, mas os soldados me contaram.”

Desconhecimento

“Eu já tinha ouvido falar sobre a bomba atômica, o nome. Mas, detalhadamente, não sabia nada. Ninguém em Hiroshima sabia. Soube que o ataque tinha sido por bomba atômica quando estava doente no subúrbio, de cama. Foi um mês depois, mais ou menos. As pessoas sabiam que a bomba era especial, mas que era uma bomba atômica, como sabemos hoje, ninguém sabia na época. Por isso muitas pessoas tomaram água, fizeram tratamento errado.”

A vida mudou

“Minha vida mudou muito depois da bomba. Mas os tempos hoje também mudaram. Agora eu estou pensando em paz. Até mais ou menos seis meses depois da bomba, ficamos procurando as pessoas perdidas por toda a cidade. Andávamos muito, procurávamos nos hospitais. Achamos algumas pessoas, mas a maioria não.”

Renascimento de Hiroshima

“Minha família não voltou a Hiroshima. Construímos uma casa perto da que havíamos nos refugiado. Meus pais não quiseram voltar à cidade. Muitas pessoas não queriam voltar, porque se dizia que nenhuma planta nasceria por 70 anos. Mas não foi isso que aconteceu. A natureza é forte. (A filha de Yasuko, Mitiko, explica que o próprio governo não aconselhava que as pessoas voltassem para suas casas, porque não se sabia quais seriam as conseqüências.) Com as plantas voltando a nascer, os cidadãos de Hiroshima mudaram de pensamento e resolveram voltar. Levou muito tempo para se começar a reconstruir Hiroshima.”

Lembranças vivas

“As lembranças antigas voltam de vez em quando. São muito vivas, como se tivessem acontecido ontem. Eu me lembro daquela luz, da cidade plana pela destruição, do sofrimento das pessoas. Como sofreram aquelas pessoas. (Mitiko diz que, por muitos anos, sua mãe contava que não conseguia ter sonhos bons, tinha pesadelos que voltavam sempre). Mas também me aconteceu muita coisa boa neste mundo. Agora, eu recebi a quarta geração da minha família (Yasuko se refere ao bisneto Bruno, de 1 ano). A gente não pode fazer nada sozinho, mas, de geração em geração, pode fazer coisas boas. Por isso, estou muito contente com a minha vida agora. Diminuiu um pouco este trauma.”

Tabu

“Algumas pessoas tinham medo de se casar. Tinha amigas que não queriam que contassem que elas tinham sido contaminadas, com medo de não conseguirem se casar. Eu não tinha medo. Eu sempre falei claramente como agora, porque a bomba atômica não é um problema pessoal. Tem conseqüências pesadas socialmente, no mundo todo. Então, tem que falar, para não se usar mais a bomba. Não sei a porcentagem ao certo, mas a maioria das pessoas falava. Só poucas pessoas tinham preconceito.” (Mitiko diz que acha que seu pai tinha mais problemas para falar da guerra do que a sua mãe. O pai serviu nas Filipinas e ficou muito traumatizado. Já a mãe, conta, acha que pode superar a dor falando, passando de geração em geração o que realmente aconteceu, que não deve se calar. “Essa é posição dela”, diz Mitiko).

Seqüelas

“Eu não tive nenhuma seqüela. Não apareceu nenhum sintoma. A ferida doía bastante e, espiritualmente, eu fiquei muito fraca. Mas a ferida ficou boa e, espiritualmente, eu fiquei recuperada. Por isso, eu não tive medo, nem de ter filhos. Muitos médicos me atenderam. O instituto de pesquisa da bomba atômica de Hiroshima, dos Estados Unidos, quis me estudar, fui convocada. Eu fui lá, fiz a consulta, mas não constataram nenhuma conseqüência. Por isso estou vivendo até agora. Além disso, tive a ajuda de várias pessoas para me recuperar. Quando estava de cama, sem conseguir levantar, uma parente resolveu me maquiar, passar blush em mim. Fiquei muito contente com este gesto dela. O budismo também ajudou a me salvar, porque ensina que o preto e o branco são a mesma cor. Que dar e receber é a mesma coisa.”

Vinda para o Brasil

“Conheci o Brasil na década de 50. Meu marido veio a trabalho e fomos a Belém e ao Rio. Ele era funcionário do governo japonês e eu, dona de casa. Gostamos do Brasil. Viemos morar aqui em 1973, depois da aposentadoria do marido. As pessoas com que fizemos amizade me deram bastante coisas boas para me consolar. Uma amiga minha, mais velha, se ofereceu a ser a minha “mãe do Brasil”. Eu aceitei. O abraço do povo brasileiro é grande. Além disso, o clima é bom para mim.”

Raízes no Japão

“Mantenho contato com o Japão. Ainda tenho parentes e amigos lá. Eu sabia de muitas coisas pela televisão, pelos jornais, por cartas, mas só voltei a Hiroshima há cinco anos. O trauma reviveu no meu coração. Não consegui ir ao memorial das vítimas. Levaram-me para perto de lá e fiquei rezando. Mas não pude ir lá, as lembranças eram muito fortes. Doía. Eu fui para ver meu irmão mais velho, que estava doente. Ele morreu dois meses depois.”

Relação com os EUA

“Eu perdôo os Estados Unidos, se eles não fizerem isso de novo, senão o ressentimento não sai. Estados Unidos e Japão têm que ter sempre boas relações, têm que concordar para a paz. Podem ser bons amigos. Os Estados Unidos têm muito poder, e o Japão é um país pequeno. Mas o Japão também pode dizer para os EUA para não fazer guerra, não jogar a bomba atômica de novo. Eu creio que os EUA têm uma boa consciência, acho que muitos americanos não querem outra bomba atômica. Mas, politicamente, cada país é muito difícil. O presidente dos Estados Unidos tem que ser uma pessoa com desejo de paz. E o Japão pode ajudar esta pessoa, dando conselhos. Além disso, tem a Constituição japonesa. Os japoneses declararam que em nenhum caso podem fazer guerra. Está escrito. Então, nós não podemos ter bomba atômica. Só podemos nos proteger com a amizade dos outros países como China, Coréia, Estados Unidos. O Japão está andando neste rumo, o rumo da paz.”

YASUKO HIROSE

90 anos

(relato de 2005)

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